quarta-feira, 30 de setembro de 2009

.farda [o].interior.



Imagem: Manet


Ele não percebeu que ao tirar a farda surrada de todos os dias, tornar-se-ia um de nós. Enquanto o lado da mesa em que se sentava era o oposto ao sol, a luz nunca refletia aos seus olhos, apenas ouvia o estampido dos gritos a cada execução.

A atmosfera era pesada devido ao clima de torturas intensas. Físicas ou mentais, torturava-se inúmeros ao longo do dia, e a farda surrada começava a pesar no corpo, que há anos esquecia-se que perante a lei dos humanos, todos nós somos iguais.

No cinzeiro da sua escrivaninha já não havia mais espaços para bitucas e a cinza de seus cigarros começava-se a se espalhar pelo vidro que aparava-se sobre a madeira velha, que insistia e suportar o peso do dia-a-dia. Recortes de jornais com condecorações antigas, presos por debaixo do vidro, não serviam-lhe mais de argumento para tal pensamento cruel.

Para quem acreditava que Deus não existia, Demônios começaram a lhe perturbar. As lágrimas daqueles rostos que lhe imploravam pela não execução, seguido de um carimbo vermelho sobre a guia, estavam mais presentes nos últimos dias. O calor que suava sobre o colarinho da camisa branca, tinha uma força sufocadora que tentava asfixiá-lo constantemente.

De tragos em tragos nos balcões dos bares em que costumava freqüentar, já não sentia mais aquela calmaria que a cana lhe permitia sentir, mesmo após um dia inteiro sobre a mesa com suas condecorações. Quando bebia para esquecer as vozes que ouvia, elas tornavam-se mais constantes dentro daquela mente doentia, daquela mente vazia.

A força em seu punho já não estava mais como antigamente, nem mais os seus filhos poderiam o ver sorridente. A farda pesava demais, e não se sabia ao certo quantas condecorações eram necessárias para libertar-te a alma. Se na vida tudo tem o seu preço, começava-se a pagar as prestações, então. Pela primeira vez, teu corpo começou a envelhecer.

Não adiantou freqüentar a igreja da sua comunidade para expulsar os Demônios do seu corpo, pois ali já se habitavam e tornou-se a sua morada. Não adiantou rasgar a farda surrada com os respingos do ódio que ela se tornara parte da pele. Aquele odor que exalava do seu corpo era parte da culpa que carregava consigo. Agora era tarde demais.

Feito louco, ele correu sem qualquer direção, apenas por correr e tentar se libertar da farda que agora já tinha se tornado fardo. Em imagens, a culpa de anos servindo à corporação começou a lhe passar pela cabeça. No escritório, agora a escrivaninha estava virada de frente para o sol, para a luz refletir diretamente aos seus olhos, para que o mundo afora pudesse ser observado.

Não deu tempo para nada, pois o fardo se tornou uma obsessão e aquela loucura que deixava o suor escorrer pelo colarinho branco, escorreu pelo corpo todo, inundando-o numa correnteza que só foi possível ouvir o barulho no chão, seguido de uma sirene assustadora. Era o fim de um tempo, e o começo de uma nova era.


5 comentários:

Wagner Kern Velasques Jr. disse...

Recomeçar tudo. POr que não? Nossas fardas são pesadas mesmo. Cada um no seu jeito. Belo texto.
E obrigado por lembrar de mim no churras. Eu gostei de estar lá.

Abs

Daniel disse...

Achei legal isso que escreveu e me lembrou alguns filmes sobre ex soldados americanos que mataram muitas pessoas em guerras sujas como as que vemos todos os dias nos noticiários.

Mas me lembrou especialmente do mais recente que vi (aliás, é um dos meus prediletos), o Gran Torino. Muito foda esse filme, e durante o filme o ator principal, Clint Eastwood (algo assim rsrs) vive com esse peso nas suas costas.

abs

Drizinha disse...

Assiti a esse filme que o Daniel comentou e ele veio na minha cabeça enquanto lia seu texto....ao mesmo tempo fiquei meio angustiada e incomodada com as palavras que eu lia...arrepiei...voltei ao normal. Parabéns!!!

Fê Volpi disse...

Excelente texto! Escrito com a alma para tocar outras tantas almas...

Se este texto fosse meu, trocaria apenas o carimbo por uma caneta vermelha, velha e cansada, que rabisca tantos papéis sem mais saber por que.

O fardo é o mesmo!

Detesto me sentir assim...

(agora está registrado)

ju mancin disse...

e usando um Manet pra ilustrar... sensacional!!!