segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

.pré.2011.



Guerreiro num mar sem fim, lá está ele começando o ano. Às suas costas, verdadeiras lanças passam raspando por sua pele, algumas deixando uma pequena e breve ferida, que com o tempo cicatrizar-se-ia sozinha, junto às águas do mar, salgadas e tranqüilizantes.

Como quem não foge à luta, protocolou a missão de enfrentar importantes desafios, sejam estes nos dez cartórios da capital ou em Kyoto. Não negligenciou nenhuma regra e muito menos foi desobediente ao coronel, que o colocou em linha de frente por algumas situações. Como sempre seguia quebrando padrões, afirmando-se um formador de opiniões.

Tudo corria perfeitamente bem para aquele ano de 2010, de juras a projeções, de sonhos e canções, a chuvas e trovões, e alguns pequenos palavrões. Ele desviou de uma, duas, mas a terceira foi fatal. Guerra tem disso, uma pequena flecha invisível, pelo menos aos seus olhos, atingiu seu peito, fazendo-se derrubar a primeira lágrima.

A dor foi inevitável, dolorida no sentido literal que deve ser aplicado ao nome. Por um tempo ele se sentiu atrofiado, com o cérebro desmaiado, como muitos esperariam de fato. Com o corpo boiando ao mar ele decidiu que não queria naufragar, muito menos uma onda em suas costas rebentar. Estendeu a mão para todos àqueles que estavam sobre bóias.

Alguns tentaram puxar suas mãos, outros disseram que iam puxar. Outros até tentaram, mas um pouco mais tarde tiveram que as soltar. Então ele decidiu o mar aberto enfrentar, e com suas roupas rasgadas e surradas, só lhe restava o oceano atravessar.

As vezes ele conseguia olhar a Lua, em outras ele observava-a por entre as nuvens. Mas todas as vezes em que eles se olhavam um sorriso de esperança era marcante, que refletiam aos seus olhos brilhantes todos aqueles sonhos que pareciam um pouco distantes.

Hoje ele se lembra de tudo isso sentado à beira da praia, com pequenas ondas vindas ao seu encontro, quebrando no meio do seu peito. A cabeça vai longe olhando fixo no horizonte, pensando naquele que chega. Já admirando-o só pela luta constante que foi este, aquela de viver intensamente.

De frenético a estático, de vulgo a gramático e como sempre muito enfático, desta vez ele é apenas um sonhador. Com olhar fixo e punho cerrado sempre, ele deseja viver o amanhã com a mesma braveza e a mesma destreza que lhe foi ensinada, mas também quer voltar a ter aquele olhar leve, cativante, e terno que sempre teve. E para isto basta sempre seguir à diante.

Ele tirou a farda de outrora, que hoje só faz parte de sua coleção pessoal. Hoje, este soldado de barba cerrada só sente a brisa bater no seu quintal, sentado debaixo da árvore que sempre ajudou a regar. Alguns livros se fazem de seu banco, porque ele não está aos trancos, e muito menos aos barrancos.

Está apenas na contagem regressiva deste ano que vem, e de todas as promessas que realizar-se-ão ao longo do curso da vida, não só deste ano ou daquele, mas sim da vida, do hoje e também do futuro.

Jamais ele se esquecerá do ano em que o Brasil perdeu a copa, começará aceitar a derrota, e compreender mais de perto que deus realmente escreve certo por linhas tortas.

Com a metáfora na mente, enquanto ele apaga seu fósforo recém riscado, reflete: Eu sou o charuto, ela é a champanhe.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

.daqui.a.um.ano

Daqui a um ano nós estaremos no altar

Na linha do horizonte, me darei de encontro aos teus olhos

No descompasso do suor proclamado pelo olhar

Aquele, aquele mesmo de alguns anos atrás

Daqui a um ano seremos nós dois

Mas não aquele casal convencional, feijão com arroz

Com personalidade própria e muito amor

É assim que lhe peço nossa benção, meu Senhor

Daqui a um ano já não será mais este ano

E assim ao meu modo eu vou sonhando.

As vezes bem alto eu vou, que até mesmo as nuvens consigo alcançar

Em outras, nas águas claras eu consigo mergulhar, penetrando em seu olhar.

Daqui a um ano ainda será este dia

Mas será aquele em que esta promessa se cumprira

Lembra daquelas, as de fim de noite?

São todas elas, e ainda mais um monte

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

.hoje.

Ontem eu não queria dormir, aflito, por mais uma data sem você. Estamos apenas no começo de uma odisséia, o começo de uma nova ordem, o início de um futuro apagado, pelo menos para mim.

Lembrei-me do ano passado, e de todos os anteriores também. Você ficava sentado na mesma cadeira de sempre esperando eu acordar. De imediato eu recebia seus cumprimentos, e a ordem das palavras eram exatamente as mesmas: Parabéns e Juízo!

Hoje eu faço 32 anos, e em alguns momentos eu realmente esqueci. Ao acordar, ouvi minha mãe dizendo: Acorda aniversariante do dia. Ela vem tentando me animar com freqüência, mas a vida aqui perdeu o gosto.

Até hoje eu não consegui voltar a praticar aquele esporte que tanto te orgulhava. Seus olhos brilhavam quando eu entrava em casa com uma medalha, mesmo esta sendo de participação. Tenho medo de entrar em casa sabendo que não vou mais ouvir “Hey Rô, vai correr?”, então eu resolvi parar.

É meu Pai, você sempre fez questão de comprar meu bolo, lembro como se fosse hoje, todos os meus aniversários tinham o gosto da “Fischer” e este era um dos poucos bolos em que eu gostava. Você nunca ligou muito para me dar presentes, sempre deixou a cargo da minha mãe, também, sempre que você comprava alguma coisa eu reclamava do tamanho, da cor, do modelo, então um dia você cansou.

Eu juro que não queria me lamentar na data do meu aniversário, Pai, de verdade. Mas a cada dia pra mim é um novo dia, e cada um deles nem sempre é mais fácil que o outro.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

.tempos.de.crise.e.muita.confusão.

Num país em que na década de oitenta apenas milionários tinham telefone fixo, e num presente em que bandidos fazem ligações, tranquilamente, dentro de presídios, não seria difícil de imaginar o resultado das nossas urnas nestas eleições.

Num país em que foi feito de tudo para aniquilar, junto ao voto consciente, a “ficha limpa”, não seria difícil de imaginar que “fichas sujas” se beneficiariam transferindo suas candidaturas para cônjuges, para enfim se eleger.

Seria muita redundância da minha parte dizer que brasileiro tem memória curta. Eu acredito que o problema é bem maior. Existe uma grande parte do nosso país, infelizmente, que o acesso à cultura e à informação é escasso. A manutenção disso é a força de uma minoria podre que ri [às vezes, dançam] às nossas custas, literalmente.

Riem porque é fácil manter o analfabetismo funcional, é muito cômodo ignorar aquele que, humilde por natureza, é carente de necessidades básicas que eu, você e todo mundo que terá acesso a este texto, não sofremos.

Infelizmente, neste país ainda têm alguns municípios em que água encanada é assistida somente pela televisão e em época de eleição, transporte público é coisa de cidade grande e educação é pra quem sabe escrever, não só o próprio nome.

Estabilidade financeira é sinônimo de cargo público. Propostas políticas que já deveriam ser praxe há anos, são apresentadas em horários gratuitos como um atrativo de votos, ao estilo vendedor de ilusões. Nos sentimos como se estivéssemos buscando alguém que nunca chegará a ser apresentado à nós. Ficamos à mercê daquele número que nos acenderá uma esperança honesta e sincera, que mude para sempre a nossa história política, aquela em que nossos bisnetos lerão nos livros e sentirão orgulho de seus entes terem feito parte desta porra toda.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

.ontem.eu.sonhei.

Ontem eu sonhei que descalço eu pisava em seu jardim, e lá não havia uma placa dizendo ser proibido pisar na grama. Andávamos tranquilamente, enquanto de mãos dadas eu dizia o quanto estavam difíceis as coisas aqui embaixo. Você não caminhava com a mesma dificuldade de outrora, mas mesmo assim eu insistia em me preocupar com seus passos. Você me dizia sobre futuro, passado e presente em uma mesma conjugação verbal, foi um pouco difícil de lhe interpretar.

Ontem eu sonhei que você me pedia calma, me pedia tranqüilidade e enquanto ainda caminhávamos sobre um verde sem fim, você me dizia sobre prosperidade, lembrança e saudades, exatamente nesta mesma ordem. Você não me aparentou estar cansado por andar bastante, mas mesmo assim eu ainda me preocupava com seus passos. Depois de você pronunciar duas passagens de “Who the cap fit” do Bob Marley, eu realmente deixei cair uma lágrima.

Este foi o clímax da nossa conversa. De repente tudo se apagou, e quando a luz acendeu novamente eu estava descendo de volta pra casa. Conforme eu descia vagarosamente, uma imagem lá embaixo começava a tomar forma, era o Meu Amor, mais uma vez de braços abertos a me confortar, e sempre a me esperar. Conversamos bastante sobre a minha viagem, que afinal de contas, cheguei cansado e tinha muita coisa pra contar.

Em Quem Couber a Carapuça – Bob Marley

Homens com homens são tão injustos, crianças

Você não se sabe em quem confiar

Seu pior inimigo pode ser seu melhor amigo

E seu melhor amigo seu pior inimigo

Alguns irão sentar e comer com você

Porém por trás eles irão te mau-dizer

Somente seus amigos sabem seu segredo

Então só eles podem revela-los

E em quem servir a carapuça deixem-na vestir

Muitos te odiarão fingindo te amar

Por trás tentarão te eliminar

Mas a quem Deus abençoa, ninguém jamais amaldiçoa

Graças ao Senhor, o pior já passou

Hipócritas e parasitas

Virão à tona e farão visita

E se de repente sua noite se tornasse em dia

Muitas pessoas fugiriam

E em quem servir a carapuça deixem-na vestir

terça-feira, 31 de agosto de 2010

fragmentos - parte I

E então lá está ele, fazendo os últimos ajustes na sua mochila. Fez uma lista e pregou-a no seu antigo guarda-roupas, não esqueceu nenhum item, e está pronta para jogá-la no porta-malas do seu carro para seguir adiante.
Um beijo magro para se despedir da família como habitualmente fazia, e já apressadamente corria para seu cadilac, em busca de sua mais ambiciosa descoberta. No play, aquele antigo ska tocado com fiel precisão, comandava o ritmo das trocadas de marcha.
A busca por novas culturas, por desvencilhar-se de um moralismo declarado e pela ânsia de poder entender seus pensamentos, o leva sozinho pela auto-estrada que até ontem, só a conhecia pelo mapa.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

[des] preparo [des] ilusão



O gatilho está na minha mão e na minha frente eu não vejo nenhum deus. Sinto só o cheiro da munição ressecada pelo sol que tardia dentro do tambor. Sem o menor pudor, comigo eu só carrego meu rancor desta sociedade que há anos me abandonou. Tudo culpa do eleitor.



A minha história está apagada pela memória do tempo, minhas lembranças são apenas das manchetes de TV, meu rosto no passado era reconhecido pelas fotos 3x4 nos jornais, hoje em dia sou reconhecido por qualquer circuito de segurança. A impunidade começa a se desmanchar pelas águas da chuva, pena que estamos em estiagem.



Corromper não é mais só um verbo, e já é ensinado nas escolas da vida. Se lhe confundirem com um desafeto não terá escapatória, o estampido vai zumbir. E depois que a bala sair, a direção é certa, o meio da sua testa. Não será a minha família a chorar, então deixo esta vela para lhe ajudarem a carregar.



O futuro não me incomoda porque não vejo solução, se ninguém tem esta preocupação, eu mesmo resolvo com um “oitão”. Enferrujado pelo tempo ele pode estar, mas com a minha boa mira ele vai te acertar. E não adianta fugir porque eu sei te caçar, o Estado me dá este suporte e é este álibi que no tribunal eu vou usar.



Até a minha cela de prisão é diferente, e olha que pra isso eu nem preciso dizer que sou crente, se é que você me entende. Um tom de arrogância até pode ter, pois eu tenho um distintivo diferente de você. Isto vai me fortalecer, mesmo se no dia do julgamento eu perder.



Pra finalizar, eu não quero fazer sua família chorar, mas para isto você precisa o meu caminho não atravessar. Advogado de defesa eu encontro em qualquer lugar, e no tribunal é só eu me calar.

domingo, 4 de julho de 2010

.anestesia.

De repente a minha garganta seca, e meus ouvidos são apenas mais um sonido. E então olho para o meu braço e posso ver a adrenalina correndo por minhas veias. Será necessário só mais um estalo para que eu possa seguir em dormência profunda, tentando esquecer que o outro dia é segunda.

Meus pés saltam do chão, fico tentando tocar as suas mãos. Com um olhar, fico procurando-o em minha direção mas que parece ser em vão. Num sonho que parece não acabar, me encontro jogado ao chão no meio da multidão, e parece que não vou mais acordar, sem em suas mãos podê-las tocar.

Começo então a lembrar-me dos sonhos de criança, do dia-a-dia e de alguns segredos ainda por contar. Talvez, saudades, seria o nome mais adequado para um verbo que não conseguirá, sequer uma vez mais, se conjugar. Penso no futuro como se de repente não houvesse mais o amanhã, tento apenas conter a respiração que se convence em querer me ajudar.

Agora, procuro não mais me lembrar das discussões que tive com deus, e de todas as afirmações que lhe fiz. Procuro apenas me lembrar de todos os momentos em que me fez tão feliz. Lembrei de quando fomos ao parque ou então de quando compramos a primeira guitarra. Das viagens para a praia e dos nossos pequenos natais.

Por um segundo acredito não ser egoísmo querer que conhecesses meus filhos, Matheus e Helena. Do meu livro que estou escrevendo, que era segredo, mas agora já não faz mais sentido. De me ver casar, com esta moça tão bela, que segurará as minhas mãos até os dias finais em que eu viver.

Para quem escreveu a letra de “pensando em me matar”, sinto um desejo incrível de viver, mas ainda está contido. Sinto uma vontade tremenda de retomar os meus sonhos, mas ainda está contida. Penso como seria o máximo dar uma gargalhada alta, mas ainda está contido. Tudo tão quanto àquele sentimento que não quer mais crer.

A pulsação se torna devagar, perdendo o compasso do samba que agora não é mais de bamba. Os versos, estes que já foram tão intensos, deixarão agora apenas uma chama acesa, destas parecidas com velas de mesa, que sobre a ceia insiste em se apagar. Será difícil de acreditar.

Não encherei mais meus olhos de sangue, mas caminharei meus dias com um sabor marcante. Sempre com passos largos e pensamentos distantes, distraído da vida e sonhando distante.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

.aquele.último.café.da.manhã.



Aquele último café da manhã com uma conversa que ficou por terminar, uma pauta mal discutida, um projeto que agora só ficará na mente e não chegará ao papel, um ultimo toque, um último carinho e a última palavra profanada [pausa]. No silêncio que agora habita uma multidão, todos os pensamentos estão voltados para a compaixão.


Eu andava por entre as pessoas, sentia um cheiro que me arrepiava a espinha, aos poucos ia perdendo o compasso dos pés, mas insistia em pisar forte, firmar o passo e manter a linha reta. Por um instante eu parei, não conseguia mais andar, o cheiro me incomodava, junto com meus pensamentos que não me deixavam em paz.


Por um instante eu parei, meus pensamentos se voltaram para estes 31 anos que a cá estou. Lembrei-me de quando eu nunca havia quebrado um braço e voltava da escola pedindo à minha mãe que me enfaixasse. Lembrei também de quando brincávamos de “barquinho” onde na verdade folhas e gravetos eram jogados sob a sarjeta, e na correnteza das águas em direção ao bueiro, os “barquinhos” apostavam corrida.

A sensação de empinar uma pipa, o primeiro “olié” de skate, me lembrei também de quando fui atropelado. E quando andávamos de bicicleta e íamos até as “curvas em S” e descíamos com Yakult na roda fazendo barulho. Nas eleições, juntávamos os papéis de “boca de urna” para atacar nos ônibus. Do rio, quantas pedras atacávamos nos caminhões que passavam pela via Anchieta, só para ouvir o barulho do baú.


Tantas outras que tornariam a leitura maçante, tantas outras que tornariam a literatura intrigante. Outras tantas que me fizeram pensar, me fizeram refletir, mesmo com aquela lágrima no canto do olho eu fazia força para tudo isso digerir. Quanto vale a nossa vida?


Desperdiçamos muito tempo criando intrigas ao invés de criar afeto. Nos fortalecemos da desgraça alheia. Estamos sempre em busca de fofocas, a nossa vida se tornou uma fofoca. Até a televisão nos faz rir com a desgraça alheia. Estamos sempre buscando algo novo em que prejudique alguém, nos saciamos prejudicando alguém.


Para algum dia, metaforicamente, a vida lhe tirar a vida.


E então no seu silencio ad eternum não adiantará a alma questionar seu aprisionamento precoce.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

.você.é.feliz?.



Fixo meus olhos no horizonte, vejo de longe uma flecha sendo lançada, uma bala de revolver sendo disparada, e vejo também aqueles olhos desesperados procurando uma direção. Eu estou do outro lado, sentindo a brisa bater na minha cara e respirando o ar mais puro que os pulmões podem inalar.


Isento-me de todo e qualquer desperdício alheio de palavras mal colocadas ou até mesmo mal profanadas, pois continuo lá, olhando para o horizonte. Desci dois degraus para com ti, poder conversar de igual pra igual, porém, ao retornar pra cima, para o meu lugar original, vejo aquela flecha de perto querendo rasgar o meu pescoço.


Consigo desviar para o lado que escolho e dou de cara com a bala do revolver. Ela é de festim, não tem força para mim. É então que olho para aqueles olhos, que em seu semblante começam a sangrar. Lágrimas de sangue... é o que você está a chorar. Mesmo de longe posso enxergar o contraste do vermelho em sua pele.


Não estou apoiado em ombros de gigantes, já que é de canção que estou a metaforizar. Descobri o novo, experimentei outro sabor e este cheiro de comida salgada demais que às vezes passa pelas minhas narinas, graças a Ele, eu não preciso mais sentir. Com outro paladar, este prato eu não quero mais aplaudir.


A libertação surgiu do inesperado, os laços foram cortados com aquela tesoura de ouro cravejada com diamantes, usada apenas nestas ocasiões. No dia-a-dia ela fica repousada em sua caixa discreta, sem muitos adereços e com o seu interior estofado de seda. Quase nunca foi utilizada, talvez por este motivo que seu corte é feito com bastante precisão.


Como disse um dia alguém dos Ramones que não consigo mais me lembrar, cansei da mesma jaqueta de couro e das calças jeans rasgadas no joelho. Ainda me sinto livre pelos ideais que considero concretos e carrego-os comigo, porém, percebi que para levantar uma bandeira eu não preciso me portar ou aparentar ainda ter quinze anos.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

.o.teu.sorriso.o.teu.sabor.e.o.teu.amor.



O teu sorrido não tem cheiro de mar, tem o sabor do campo


É por ele que eu me encanto, onde ouço os acalantos


Aqueles que só você sabe cantar, fáceis de ninar


Canções sussurradas aos meus ouvidos, de leve e ao infinito



No escuro, vejo o desenho do teu corpo, modelado por Deus


Ao claro, vejo o teu sorriso, sempre refletindo ao meu


Olho nos teus olhos e me vejo no espelho, sorrindo


É o reflexo dos teus olhos nos meus, sempre sorrindo



O teu sabor não é salgado como o mar, é doce como o campo


É por ele que eu me encanto e faço os votos mais românticos


Mesmo aqueles que não sei fazer, mas me arrisco a aprender


E se eu errar, sua mão estará estendida para me consolar



O teu amor é verdadeiro, aquele de se entregar por inteiro


Não há dor, não há prantos ou rancor, eu me entrego por amor


Quando fecho os meus olhos, em meus sonhos posso e encontrar


E quando abro-os para me levantar, sua fragrância ainda está no ar

quarta-feira, 17 de março de 2010

.pedophilia.



Lembro-me de quando eu era pequeno e minha mãe fazia um típico comentário sobre os “mórmons”: Não converse com este povo estranho que perambula pelas ruas batendo nas portas das casas, se eles te pegam, vão te fazer lavagem cerebral. Minha imaginação corria, fazendo-me ter medo daquele povo de calças pretas, camisas brancas e com uma plaqueta no bolso da camisa. Acreditava que me colocariam em uma maca, uma série de fios e cabos seriam conectados à minha cabeça, para então fazer a lavagem cerebral, que então, eu esqueceria quem era a minha família, e passaria a perambular pelas ruas também. Para mim, lavagem cerebral era isso.


Quando eu era muito menor que isso, um pouco depois da fase do “homem do saco” minha mãe tinha medo também, de que eu conversasse com estranhos. E então dizia: Se alguém te parar na rua, pedindo para entrar no carro com ele, não entre, estas pessoas pegam crianças para fazer maldade, então nunca converse com quem você não conheça. Novamente a minha imaginação corria, imaginava um pessoal virando a esquina da minha rua com uma Kombi, me oferecendo carrinhos para brincar, e então me seqüestrar. Na realidade, minha mãe estava com medo de pedófilos, que em meados da década de 80, nem sabíamos pronunciar tal nome.


Hoje o medo da pedofilia vem pela internet, está disfarçado de zero e um, tentando convencer nossas crianças de que ninguém sairá machucado. Por trás de uma tela de computador, em qualquer lugar da cidade haverá um filhodumaputa tentando aliciar uma criança, que em sua mentalidade paternal, acreditará em balas e doces, como se todo dia fosse de “São Cosme e Damião”.


Eu que ainda não tenho filhos, me preocupo como podemos deter tais ações, tendo em vista de que não possamos proibir e muito menos impedir o avanço tecnológico. Esta avalanche chamada de World Wide Web pode em alguns casos, mas não isolados, destruir um sonho de quem ainda mal sabe o que é Ctrl + C e Ctrl + V. Porém, um pensamento único devemos ter: tortura seguida de morte para todos aqueles que, quando pegos com o flagrante literalmente na mão, se julgam psicologicamente incapazes. Antes não eram, estranho, não?

segunda-feira, 1 de março de 2010

.estagnado.

Por um período, me sinto estagnado. Preocupo-me muito em não ser repetitivo, não tratar de assuntos que sempre tratei. Não olhar para trás, como muitas vezes olhei. O coração pulsa mais forte e mais vivo a cada suor que escorre pela testa, fazendo-se sentir o caminho pelo canto do rosto, até encontrar a camiseta velha e surrada.

Chego a quebrar a ponta do lápis pela força praticada, em resposta de um pensamento novo que não vem, anseio por novidades, por construções e alucinações. Não quero mais ouvir comparações entre o Brasil e outros países da Europa. Cansei de explicar hiato de poder e a nossa extensão, e que discutir numa mesa de bar acaba sendo em vão.

Não quero também olhar apenas para a ponta do meu nariz, mas ficará muito difícil alguém me aplaudir se tudo o que querem é uma nova novela pra assistir. Num curto espaço de tempo era moda falar sobre sustentabilidade, agora já se esqueceram e voltou-se a preocupação com a vaidade. Vamos consumir, vamos gastar, nem que seja com algo que não vamos usar.

O monopólio toma conta do Brasil, a indexação de preços varia de acordo com o que o acionista quer ganhar. Se o álcool aumenta, a culpa é da safra e das chuvas, mas a margem de lucro precisa-se alcançar. Quem paga a conta é um único otário chamado brasileiro que só pensa em trabalhar, pois sonha em ser um norte-americano e na sua Nova Iorque é difícil se sustentar.

Às vezes me perco no meio da escuridão mesmo quando não estou andando na contramão. Tento fugir daquele “leão” que mês a mês faço a minha contribuição, ele é faminto e não aceita carne de segunda mão. Um dia o teu braço ele vai arrancar, pois mais um castelo perdido em alguma cidade distante, este animal quer morar. Pode ser que ele seja cassado, pois caçado eu não sei, mas se a mira está na minha mão, com o dedo no gatilho é até três.

Temos ânsia de mudar, mas nosso quarto continua uma bagunça, nosso bairro continua maltratado e continuamos a jogar lixo pela janela do carro. Que mudança queremos? Temos o hábito de apontar dedos como se nosso passado fosse limpo, culpamos a todos porque nunca somos os verdadeiros culpados. Atiramos pedras porque não gostamos de ser atingidos, e quando morrermos, deixamos a merda toda para nossos filhos.

Esquecemos-nos de que um dia vamos voltar, pode ser aqui, no inferno ou em qualquer outro lugar. E na mesma merda que deixamos, é onde vamos pisar, ainda não entendemos que um sacrifício agora será menos traumático, já que o trauma será inevitável, poderia pelo menos ser menos enfático.

No fim, percebo que de estagnado não tenho nada, apenas cansaço. Das mesmas vozes, das mesmas caras e das mesmas frases. Das mesmas vozes de tontos, das mesmas caras de bestas e das mesmas frases compradas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

.habana.











É difícil explicar o êxtase que te consome ao pisar nas ruas de La Habana, sentir o seu cheiro e conhecer o seu povo que só começa a mostrar seu real lado ao decorrer dos dias. Seus edifícios e casas coloniais, uma arquitetura que faz perdermo-nos na década de quarenta e cinqüenta em meio ao século XXI. Embalados pelo ritmo dos bongôs, maracas muito bem utilizadas, somado à um violão [sem me esquecer do violoncelo] e vozes “muy hermosas” nos dão uma liberdade jamais conquistada.
Suas histórias, suas conquistas e vitórias, também contadas por vozes que acompanham calados uma transição, para muitos uma transgressão, e sonham com uma liberdade que é aguardada pelo futuro da nação. Olhos querendo também ficar atento a tudo que acontece ao redor do globo e não apenas da globo, consultando o mundo com apenas um clique, não querendo ser chique, só pedindo por inclusão.
Ruas muito limpas e arborizadas, esta é La Habana dos seus cinqüenta e um anos de revolução, mas é também La Habana do Caribe, “muy caliente” e aconchegante para todos aqueles em que ela garante, que se está com os olhos abertos consegue-se enxergar outra visão. E esta, eu não quero esquecer. Pois basta-me fechar os olhos e lembrar que muita fortuna o mundo inteiro podem nos dar, mas um belo sorriso, é só La Habana para me conquistar.
Vielas nem tão estreitas e serpenteadas por tantas travessas deixam seu charme orquestral, ressoado pelo canto dos teus belos pássaros e asas que sempre batem aos aconchegantes hotéis, exala-se sempre o aroma de tabaco que é apreciado como nenhum outro lugar. “Me encanta, me gusta” são palavras que saem naturalmente ao olhar em silêncio toda sua silhueta, onde não há outro lugar no mundo com toda a certeza, que mostra suas cicatrizes do passado e consegue dizer com clareza, que está aqui para retornar ao planeta.

sábado, 16 de janeiro de 2010

.antecipando.

Fizemos o que tinha que ser feito, trabalhamos o ano inteiro para esperar por este momento, acreditando que a vida não é feita de lamento e sim de talento. Esperamos a chuva passar para nossos pés às águas banhar. Ali, comecei minha oração, um dos poucos momentos em que falo com a voz do coração. Recordo-me que pedia por saúde, paz e emoção, porque sempre me lembrava dos teus olhos de verão.
Agora... praticamente se passou um mês, estamos no final de janeiro fazendo planos para mais um ano inteiro, e pensar, que quando chegar dezembro olharemos pra trás com muitas saudades, mas jamais, jamais pensaremos em retornar nossos passos. Olharemos novamente pra frente, faremos novos planos e realizá-los-emos um de cada vez.
Hoje embarcaremos para uma nova vida, uma nova experiência nunca vivida antes por mim e nem por você. Quando voltarmos, tudo será o mesmo, porém, ao mesmo tempo tudo será diferente. Dia vinte e três de janeiro não estarei aqui para postar o meu amor por você, muito menos estarei aqui para ratificar o respeito que temos um para com o outro, bem como não deixarei registrado a gratidão que tenho de estar ao seu lado.
Então estou me antecipando, tudo isso porque ao completarmos um ano vivendo lado a lado, um ano de cumplicidade, um ano de intensidade, estaremos mais uma vez... lado a lado, e não aqui e ai.