segunda-feira, 24 de maio de 2010

.aquele.último.café.da.manhã.



Aquele último café da manhã com uma conversa que ficou por terminar, uma pauta mal discutida, um projeto que agora só ficará na mente e não chegará ao papel, um ultimo toque, um último carinho e a última palavra profanada [pausa]. No silêncio que agora habita uma multidão, todos os pensamentos estão voltados para a compaixão.


Eu andava por entre as pessoas, sentia um cheiro que me arrepiava a espinha, aos poucos ia perdendo o compasso dos pés, mas insistia em pisar forte, firmar o passo e manter a linha reta. Por um instante eu parei, não conseguia mais andar, o cheiro me incomodava, junto com meus pensamentos que não me deixavam em paz.


Por um instante eu parei, meus pensamentos se voltaram para estes 31 anos que a cá estou. Lembrei-me de quando eu nunca havia quebrado um braço e voltava da escola pedindo à minha mãe que me enfaixasse. Lembrei também de quando brincávamos de “barquinho” onde na verdade folhas e gravetos eram jogados sob a sarjeta, e na correnteza das águas em direção ao bueiro, os “barquinhos” apostavam corrida.

A sensação de empinar uma pipa, o primeiro “olié” de skate, me lembrei também de quando fui atropelado. E quando andávamos de bicicleta e íamos até as “curvas em S” e descíamos com Yakult na roda fazendo barulho. Nas eleições, juntávamos os papéis de “boca de urna” para atacar nos ônibus. Do rio, quantas pedras atacávamos nos caminhões que passavam pela via Anchieta, só para ouvir o barulho do baú.


Tantas outras que tornariam a leitura maçante, tantas outras que tornariam a literatura intrigante. Outras tantas que me fizeram pensar, me fizeram refletir, mesmo com aquela lágrima no canto do olho eu fazia força para tudo isso digerir. Quanto vale a nossa vida?


Desperdiçamos muito tempo criando intrigas ao invés de criar afeto. Nos fortalecemos da desgraça alheia. Estamos sempre em busca de fofocas, a nossa vida se tornou uma fofoca. Até a televisão nos faz rir com a desgraça alheia. Estamos sempre buscando algo novo em que prejudique alguém, nos saciamos prejudicando alguém.


Para algum dia, metaforicamente, a vida lhe tirar a vida.


E então no seu silencio ad eternum não adiantará a alma questionar seu aprisionamento precoce.

4 comentários:

Marília PSH disse...

Arrepiei!
Profundo, sincero e cheio de verdade.
Tantas coisas que passam, tantas coisas por vir, significam tanto, temos que dar valor as coisas boas da vida, preocuparmos com noticias boas e com energias maravilhosas.

Drizinha disse...

Então....porra...quando li o título do seu post, meu coração já disparou. Sabia que vinha um texto intenso e pesado na sequência. Pesado no sentido de me fazer parar, novamente, para analisar a futilidade do meu cotidiano. A felicidade da minha infância. A verdade das minhas amizades.

Quantas vezes a gente não deixa de fazer alguma coisa por medo, por críticas??? Eu deixo várias vezes. Quantas vezes a gente deixa de dar um beijo na pessoa que ama pq brigamos por besteira, por orgulho? Eu deixo várias vezes.

Qual a intensidade que devemos viver? São tantas perguntas sem resposta.

Engraçado que há uns 2 meses eu escrevi um texto perguntando se a gente sabia quando seria nosso último carnaval. Sempre penso nisso..e deveria pensar menos e curtir todos os carnavais como se fossem os últimos da minha vida.

Marina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Sempre subjetivo. Sempre intenso, reflectivo.
A sensação que tenho é que não nos permitimos estar bem, por isso alimentamos nosso lobo mau... lembre-se que somos, todos, seres humanos... apenas 2% humanos, e 98% macacos! Observe, reflita, sinta e seja! No matter what! bjos