terça-feira, 31 de agosto de 2010

fragmentos - parte I

E então lá está ele, fazendo os últimos ajustes na sua mochila. Fez uma lista e pregou-a no seu antigo guarda-roupas, não esqueceu nenhum item, e está pronta para jogá-la no porta-malas do seu carro para seguir adiante.
Um beijo magro para se despedir da família como habitualmente fazia, e já apressadamente corria para seu cadilac, em busca de sua mais ambiciosa descoberta. No play, aquele antigo ska tocado com fiel precisão, comandava o ritmo das trocadas de marcha.
A busca por novas culturas, por desvencilhar-se de um moralismo declarado e pela ânsia de poder entender seus pensamentos, o leva sozinho pela auto-estrada que até ontem, só a conhecia pelo mapa.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

[des] preparo [des] ilusão



O gatilho está na minha mão e na minha frente eu não vejo nenhum deus. Sinto só o cheiro da munição ressecada pelo sol que tardia dentro do tambor. Sem o menor pudor, comigo eu só carrego meu rancor desta sociedade que há anos me abandonou. Tudo culpa do eleitor.



A minha história está apagada pela memória do tempo, minhas lembranças são apenas das manchetes de TV, meu rosto no passado era reconhecido pelas fotos 3x4 nos jornais, hoje em dia sou reconhecido por qualquer circuito de segurança. A impunidade começa a se desmanchar pelas águas da chuva, pena que estamos em estiagem.



Corromper não é mais só um verbo, e já é ensinado nas escolas da vida. Se lhe confundirem com um desafeto não terá escapatória, o estampido vai zumbir. E depois que a bala sair, a direção é certa, o meio da sua testa. Não será a minha família a chorar, então deixo esta vela para lhe ajudarem a carregar.



O futuro não me incomoda porque não vejo solução, se ninguém tem esta preocupação, eu mesmo resolvo com um “oitão”. Enferrujado pelo tempo ele pode estar, mas com a minha boa mira ele vai te acertar. E não adianta fugir porque eu sei te caçar, o Estado me dá este suporte e é este álibi que no tribunal eu vou usar.



Até a minha cela de prisão é diferente, e olha que pra isso eu nem preciso dizer que sou crente, se é que você me entende. Um tom de arrogância até pode ter, pois eu tenho um distintivo diferente de você. Isto vai me fortalecer, mesmo se no dia do julgamento eu perder.



Pra finalizar, eu não quero fazer sua família chorar, mas para isto você precisa o meu caminho não atravessar. Advogado de defesa eu encontro em qualquer lugar, e no tribunal é só eu me calar.